É um pequeno cômodo, sem luxo ou ostentação. A não ser pelas paredes, todas elas cobertas por instrumentos musicais de diferentes tipos e épocas. São flautas, clarinetes e alaúdes, que dividem espaço com ferramentas e gravuras que seguem a temática dos outros objetos e também retratam instrumentos musicais. Sobre as bancadas, mais instrumentos e livros empilhados.

Enquanto alguns violinos e violas recém-envernizadas descansam na estante no canto, ali ao lado, dentro do enorme armário, há muitos outros, em diferentes estágios de produção.

Resistindo ao tempo e à novidades tecnologicas, esta oficina instalada no segundo andar de um sobrado no Alto de Pinheiros pouco mudou nas últimas 4 décadas. A única exceção é a pequena mesa, ao centro, que já foi trocada algumas vezes. Atrás dela está o luthier Roberto Holz.

“Eu não me classifico como alguém que cria  instrumentos. Eu já criei bastante coisa, alguns até bem interessantes, mas não deu em nada. E outra: eu tenho noção de que já se fez tudo no passado. Certa vez criei um tipo de flauta que pensei ser muito legal. Um dia eu fui para a Europa, num museu, e gelei. Eu não sabia se ficava feliz pra burro ou deprimido. Eu olhei através do vidro e estava lá, o meu instrumento. Alguém já tinha feito aquilo na Idade Média, 500 anos antes de mim.

A Alta Idade Média foi um período em que a música instrumental se sofisticou. O artesão ia para sua oficina, fazia testes e de repente surgia alguma novidade muito louca. A variedade é tão grande que a gente nem tem como classificar. É idiota querer classificar os instrumentos musicais. Já se tentou fazer um livro completo dos instrumentos musicais do Ocidente. É impossível. Uma vida é muito pouco para se pesquisar tudo e uma biblioteca completa não comportaria tanto. Eu já vi vários livros grossos, enormes, que não apresentam nem 10% dos instrumentos do passado. Sem exageros.

Mas se eu tivesse de escolher o meu favorito, seria uma flauta do século 17, única no mundo, que dentro do universo das flautas – existe um livro com quase 3 mil tipos – ela seria o grande divisor de águas, aquela que criou uma nova linguagem. Foi a primeira flauta transversal barroca cônica desmontável em 4 partes. Ela fez parte da minha coleção até 1996, quando a vendi por algo em torno de R$ 200 mil. Hoje, vale cerca de R$ 1 milhão.

Como colecionador, cheguei a ter mais de 300 instrumentos, mas há tempos nem conto mais.

Atualmente, o que diferencia um instrumento que custa muito caro e um de fábrica, que custa R$ 200, é a forma como as peças são cortadas. Na fábrica, a máquina impõe uma realidade que a madeira não quer aceitar. Para que a madeira seja uma boa transmissora de som, de timbre, o veio dela tem que ser respeitado. O veio tem que ser contínuo, se você enviesar e cortá-lo, é como cortar um nervo da gente. Ele deixa de ser um bom transmissor. O cara que faz violão à mão, um luthier, pega uma peça de madeira e lasca ela, abre no veio, que tem uma separação natural que é aceita. E isso faz toda a diferença.

Eu tenho, de nascença, um talento muito bom para mexer com madeira. O pessoal brinca que é predestinação: meu sobrenome, Holz, significa madeira em alemão. Coincidência ou não, o fato é que desde menino eu gostava de mexer com madeira. Por hobby, comecei a consertar instrumentos musicais para amigos. Primeiro virou trabalho, depois, uma paixão.

Me tornei um flute maker, mas eu repudiava as pessoas a quem eu classificava como sem talento, e não fazia flautas para elas. E geralmente era alguém que tinha dinheiro, que podia me pagar bem. Mas às vezes eu preferia fazer de graça para alguém talentoso.

Vez ou outra aparecem pessoas muito talentosas por aqui, geralmente amadores: médicos, advogados… Há uns 2 anos, conheci um oficial de justiça que toca flauta doce, só gosta de flauta doce, entende tudo de flauta doce, tem a maior coleção de flauta doce que eu já vi. Eu nunca conheci alguém que tivesse tanta paixão por algo tão pontual. Ele é extremamente exigente, tem um ouvido privilegiado, ouve sons que nem eu ouço. Nem imagino de onde ele tira esses timbres, esses coloridos, essas nuances mínimas. Ele tem uma sensibilidade absurda. Nunca conheci alguém como ele.

O lado bom é que quem quiser começar nessa área de construção de instrumentos hoje vai ter à vontade ferramenta e madeira. E o principal, a literatura, plantas.

Como é que eu conseguia plantas antigamente? Indo ao museu. Viajei a Europa inteira para buscar plantas, fuçando em tudo quanto era museu, fazendo cópias, às vezes clandestinas, às vezes autorizadas, fotografando… Não existia máquina digital, então tinha que ser um dia bonito de sol. A hora em que o guardinha do museu estivesse bobeando, eu conseguia fotografar a planta por cima do vidro. Porque não tinha como ter acesso. Hoje, você compra pela internet. Todas essas plantas estão à venda.

Esse material é importante para algo que fiz algumas vezes e que me deu muita alegria, que é recriar o passado. Eu realmente tenho essa habilidade de refazer um instrumento a partir de pouca informação.

Uma vez alguém me contatou por telefone, se eu recriaria algo que ele descobriu. Na verdade, é um instrumento muito citado na literatura, mas caiu no ostracismo e ninguém mais sabia o que era. O cara me mandou iconografias e reproduções de livros pelo correio – naquela época não existia a facilidade da internet. Para saber o tamanho correto do instrumento, estudei gravuras em que ele era retratado e calculei a proporção usando parâmetros estáveis, como por exemplo os tamanhos de partes dos corpos de pessoas e animais retratados. Combinei as informações para tirar uma média e fazer o primeiro desenho. Depois, montei o protótipo e coloquei pra tocar. Foram 3 versões até bater na mosca.

Sempre que fazia esse tipo de trabalho, eu costumava fazer uma planta para mim, bem feita, do protótipo finalizado. Depois, entregava uma cópia para o cliente e dizia: ‘Pô, revivi um instrumento que não sobrou nenhum’. Isso é muito legal’.

Trabalhar com instrumentos me ensinou que nada é eterno. Tudo na vida passa, é cíclico e segue modismos. Instrumentos que são moda hoje já saíram e voltaram muitas vezes. E algo que já foi moda, vai voltar um dia.”