Obras de arte e edifícios históricos estão em extinção.

Eles são recursos finitos e insubstituíveis que estão se degradando com o impacto causado por visitantes e pelas próprias transformações no meio ambiente. Por mais que se invista em proteção de vidro, climatização e iluminação, estas obras não vão sobreviver ao turismo, desastres naturais e guerras.

A tumba de Tutancâmon, por exemplo, se deteriorou mais nos últimos 90 anos desde que foi descoberta, do que nos mais de 3 mil anos em que ficou oculta. Culpe, entre outras coisas, a respiração dos milhares de turistas que visitam o sítio arqueológico do Vale dos Reis anualmente.

Como espécies em extinção, muitos sítios arqueológicos e culturais estão em vias de desaparecer. Temos de protegê-los agora. Se eles desaparecerem, será para sempre.

Adam Lowe – diretor Factum Arte

O futuro dos artefatos do passado não é muito otimista, mas esses caras resolveram mudar isso.

A Factum Arte está montado um banco de dados com detalhes em alta resolução da superfície, cores e até detalhes invisíveis de objetos. São centenas de milhões de pontos por metro quadrado escaneados para que obras milenares sobrevivam e cheguem às gerações futuras.

Artistas e programadores se esbarram pelos amplos galpões no subúrbio de Madrid. Em um canto, estão digitalizando desenhos do século 19, de Antonio Canova. Em outro, impressoras 3D recriam o sarcófago de Seti I, faraó que reinou no Egito entre 1290 e 1279 a.C.

Adam Lowe e sua equipe estão indo muito além de escanear objetos. Eles adaptaram tecnologias para esculpir em diversos materiais cada imperfeição e textura escaneada de um objeto e, criaram métodos para imprimir sobre a superfície, o que permite a criação de réplicas perfeitas de quadros, esculturas e até da tumba de Tutancâmon, entregue em 2014 em Luxor, ao lado da original. O projeto foi encomendado para que no futuro a original seja fechada ao público, diminuindo o impacto do alto número de turistas.

Mas será que turistas estão dispostos a viajar até Luxor para ver uma réplica?

Talvez eles não tenham outra opção. É o caso das cavernas Lascaux na França, conhecidas por suas pinturas rupestres. As obras originais estão fechadas ao público, que tem acesso a réplicas, como a Lascaux II, que já recebeu 10 milhões de visitantes desde a sua abertura.

Em 1797, Napoleão saqueou o Mosteiro de San Giorgio Maggiore em Veneza, levando para Paris As Bodas de Caná. Medindo 6m77 x 9m94, o quadro de Paolo Veronese foi cortado e recosturado na França.

A obra, foi feita com a exata dimensão da parede do refeitório do mosteiro de Veneza, que ocupou por 235 anos até ser roubada e levada para o Museu do Louvre.  A parede do monastério permaneceu vazia por séculos, até a Factum ser chamada para recriar a tela, com a permissão do Louvre.

Uma réplica ajudou a completar a arquitetura do refeitório do mosteiro, recriando o que havia sido planejado originalmente.

Será que não valorizamos demais as obras originais?

Adam Lowe revela que ele e sua equipe têm se esforçado para determinar o que a originalidade significa, o que ainda seria original em um objeto que muda o tempo todo.

Além disso, muitas das obras que conhecemos foram extensamente restauradas ao longo dos anos. Algumas com resultados desastrosos – como Ecce Homo, de Elías García Martínez, e outras que retornaram à vida e, de tão perfeitas, nem parecem que foram retocadas.

O sonho de Lowe é que suas cópias tenham além da textura, o mesmo cheiro, temperatura e acústica. Para que isso seja possível um dia, há ainda muito trabalho a ser feito.

Meu sonho é reproduzir os Mármores de Elgin, para que haja uma cópia deles no British Museum, em Londres, e outra no Museu da Acrópolis, em Atenas. A réplica seria até mais original, pois seria baseada em moldes antigos, anteriores às restaurações que alteraram bastante essas obras