5 dias, 733 quilômetros, 26 veículos, 12 pontos de inspeção e um monte de poeira para atravessar por terra do Irã ao Paquistão.

Estamos viajando na caçamba de um carro de polícia em Zahedan, no Irã. Os dois oficiais na frente estão armados com pistolas. Um deles está gritando pela janela para os homens na rua, o outro está absorvido em liderar as forças armadas em uma batalha de vida e morte… em seu celular. Mais dois oficiais viajam atrás de nós, em uma moto. Um deles tem um AK-47 presa às costas. Uma verdadeira comitiva. 

Nós rimos – estavamos nos sentindo um pouco como o presidente dos Estados Unidos.

Dois minutos depois, somos transferidos para um novo carro de polícia para eliminar nossos puramente teóricos possíveis perseguidores terroristas e/ou potenciais sequestradores. Estamos mais preocupados em morrer de insolação ou desidratação do que de um ataque terrorista. 

As dunas de areia e as terras estéreis passam, e os cabelos nos chicoteiam em uma bagunça frenética. Nossos pescoços começam a doer de todas as derrapagens e desvios. Nós tentamos nos encolher para nos ajustar ao mínimo de sombra disponível, enquanto discutimos de que forma viajar na caçamba aberta da caminhonete poderia ser mais seguro do que dentro de um ônibus.

Muitas horas, 5 carros e muita poeira mais tarde, estamos na fronteira Irã-Paquistão e cruzamos sem aborrecimentos.

Quando começamos a planejar as nossas viagens, nosso principal objetivo era visitar o Irã. Dali, queríamos viajar por terra o máximo possível. Como queríamos ir em direção à Ásia, decidimos visitar o Paquistão ali ao lado. Nós não conseguimos achar quase nenhuma informação sobre lá, exceto que não deveríamos ir de jeito algum. Todos diziam que era perigoso, que morreríamos ou ao menos tentariam nos roubar.

Decidimos ir apesar de todos os avisos. Se fosse tão ruim quanto a internet dizia, nós sempre poderíamos ir embora. E estávamos certos.

Gostamos do Paquistão assim que chegamos. Os paquistaneses são um dos povos mais hospitaleiros que já encontramos. Mais adiante iríamos descobrir que é um país muito diverso e bonito, com milhares de anos de história. Mas antes, teríamos que atravessar a província do Baluquistão, o oeste selvagem do Paquistão.

(Mãe, se você está lendo isso, ignore a próxima parte.)

O Baluquistão é extremamente perigoso: os líderes do Talibã estão baseados em sua capital, Quetta, é a rota principal para os traficantes de drogas que contrabandeiam heroína e ópio para fora do Afeganistão. Recentemente, vários ônibus foram bombardeados, e os traficantes de drogas ocasionalmente sequestraram estrangeiros para usá-los como moeda de troca ao lidar com a polícia.

A verdade é que nós estávamos um pouco preocupados com toda a situação, já que preferimos viver do que morrer e não ser sequestrados do que ser sequestrados

(Você pode abrir os olhos agora, mãe.)

Como estrangeiro, uma pessoa não entra simplesmente em um ônibus no Baluquistão. Para garantir sua segurança, é necessária uma escolta armada para a totalidade da viagem de mais de 600 quilômetros para fora da província. Os Levies, os oficiais paramilitares de Baluquistão, são nossos companheiros para esta festa.

A base dos Levies é um complexo de concreto composto de celas de prisão e salas comuns igualmente decrépitas – nossa casa para o dia. As horas passam com uma variedade de personagens de folga. Um tem exatamente três dentes muito podres e uma afinidade com documentários de animais da Discovery Channel, que ele assiste na pequena televisão antiga na sala comum. Outro tem um rico e grande bigode, e mostra orgulhosamente o seu AK-47 – “a melhor arma que existe”. Um dos homens fala um pouco de inglês e nos conta histórias sobre os carros enferrujados confiscados no pátio da base.

Aquele ali, traficantes de drogas. Aquele outro, cheio de refugiados. Lá, mais traficantes de drogas. Eles tinham muitas armas. Ele ressalta o monte de furos de bala através de vários carros

À medida em que a noite chega, tentamos nos instalar em nosso lar doce lar, um escritório que não é utilizado, com zero ventilação. Um ventilador gira sobre nossas cabeças, zombando da nossa existência, enquanto sopra ar quente em nossos rostos. A outra alternativa: uma cela de prisão vazia, cheia de caixas velhas e cheirando a mijo. Agradeço a ele por levar em conta o nosso bem-estar, e asseguro-lhe que vamos ficar bem – o nosso quarto não é tão sufocante.

No dia seguinte são mais 3 veículos e 291 quilômetros empoeirados até Dalbandin. De vez em quando, devemos parar e nos registrar nos postos de inspeção dos Levies espalhados ao longo da estrada. Homens uniformizados, de humor variado, vem nos encontrar em cada parada, carregando um grosso livro de registro, com os nomes de todos os estrangeiros que passaram por aqui escritos à mão.

(Não, mãe, não somos os únicos. Eu disse a você.)

Sete horas após nossa partida, chegamos à pequena cidade de Dalbandin. Nossos corpos estão cobertos por uma camada deliciosamente espessa de uma pasta feita de poeira e suor.

Somos largados em um quarto de hotel para a noite, e é igualmente tão escaldante quanto o da noite anterior. Mais policiais com mais armas chegam e fecham a porta do nosso quarto para transmitir a mensagem – estamos sob prisão domiciliar e não devemos deixar o prédio.

Mais tarde, há algum entretenimento interno não oficial. Um homem fenomenalmente bêbado está dançando ao redor do pátio, caindo de vez em quando, enquanto fuma pacotes de cigarros uns atrás dos outros e cacareja alegremente para nós em Baluchi, o dialeto local. O homem é acompanhado por um adolescente deficiente – “Alien” de acordo com os meninos do hotel – que também fuma pacotes de cigarros uns atrás dos outros alternando com goles de Mountain Dew. Em um ponto, o bêbado rouba um cigarro de Alien, que imediatamente puxa uma lâmina do bolso e se prepara para retaliar. Alguns funcionários do hotel agarraram-no enquanto nosso policial explode em risadas histéricas.

Nosso dia mais longo começa na primeira hora. Eles dizem que vamos sair às 8, o que realmente significou 6h15. Por volta das 13 horas, entramos nas montanhas, particularmente perto da fronteira com o Afeganistão. O oficial que viaja com a gente nos olha severamente.

“Esta é uma área perigosa”.

Nós percebemos que a trava de segurança da arma destravada, e ele coloca o dedo no gatilho. Ele conversa um pouco, mas seus olhos estão constantemente examinando a terra atrás de nós. Em vez de mudar de carro a cada hora, começamos a mudar a cada 10 quilômetros. Até o fim do dia serão 14 veículos diferentes.

Chegamos à Quetta, o lugar ideal para estar se você é um policial esperando ser morto em algum atentado suicida. Me lembre por que estamos sendo escoltados pela polícia, novamente?

A polícia nos leva para a cidade em uma caminhonete coberta, acompanhados por homens armados em motocicletas.

Olhos arregalados penetram o caos em nossa direção. Para nós? Não, percebemos que estão olhando para a polícia…e fugindo.

Como Moisés abrindo os mares, o trânsito na nossa frente desaparece quando os riquixás e carrinhos de comida se apressam para evitar a caminhonete da polícia. Um motorista de riquixá se aventura perigosamente perto da nossa comitiva. O motorista do riquixá grita para o policial. O policial chuta o farol traseiro do motorista de riquixá. A lei falou.

Dois dias e muita aflição depois, estamos com pedaço de papel dizendo que podemos deixar Quetta. A liberdade é boa. Estamos em um trem abafado, partindo da estação de Quetta em direção à Karachi. Os Levies estão acenando em despedida para nós, e eu sorrio e aceno de volta. Vão embora, e boa viagem. Apenas um policial está nos acompanhando, mas ele tem a maior arma que já vimos até agora. Ele vai dar conta.

À medida em que o trem segue ao longo de seu alegre caminho através de Quetta, suspiro aliviada e respiro profundamente. A fumaça de carvão, o suor antigo e o fedor do lixo que apodrece ao sol coça o meu nariz.

Ah. Isso é como a liberdade cheira.

 

Alex e Sebastiaan são um casal de 20 poucos anos, ela americana e ele holandês. Os dois se conheceram na Tailândia e resolveram explorar destinos pouco explorados da Ásia. Esta história é baseada em uma entrevista e um artigo do blog deles.