Sentado tranquilamente próximo à porta de sua mercearia, um senhor japonês observa o vaivém do lado de fora, na movimentada avenida. Quem chega é recepcionado com um sorriso acolhedor, de quem parece estar prestes a compartilhar um segredo muito importante.

Hoje com 94 anos, Takashi Morita foi dado como morto logo ao nascer. Tanto a parteira quanto o único médico da vila de Sagotani estavam mais preocupados em salvar a mãe do que o bebê, que não chorava, respirava ou se mexia após o complicado parto. Foi depois de levar uma palmada do pai que o menino começou a berrar e, finalmente, recebeu a devida atenção.

Filho de lavradores, Takashi só nasceu na província de Hiroshima porque seus pais decidiram retornar ao país de origem mais uma vez, depois de 15 anos alternando períodos entre Japão e Estados Unidos, onde seus quatro irmãos nasceram e cresceram.

A família nem imaginava que dali a alguns anos uma guerra poderia criar entre eles uma distância muito maior do que a geográfica. Enquanto o Japão se juntou ao Eixo, ao lado de Alemanha e Itália, os Estados Unidos se uniriam aos Aliados, colocando os irmãos em lados opostos da Segunda Guerra Mundial.

Aos 20 anos, Takashi era um aprendiz de relojoeiro, até ser convocado para se alistar no exército japonês. Com uma grande habilidade para identificar aviões inimigos, foi designado para o Regimento da Força Aérea de Hamamatsu, como técnico de aviação.

Depois de passar por uma rigorosa seleção e treinamento, entrou para a Polícia Militar do Exército Imperial. Conhecida como Kempeitai, a polícia secreta japonesa poderia ser comparada a Gestapo e KGB. Temida por todos, tinha por objetivo manter a ordem pública, com livre acesso entre a população.

Do outro lado do pacífico, os seus irmãos, apesar de terem nascido nos Estados Unidos, foram tratados como inimigos. Assim como outras 120.000 pessoas de origem japonesa, eles ficaram trancafiados em um dos 10 campos de concentração da costa oeste americana.

Durante o treinamento, em Tóquio, Takashi presenciou inúmeros bombardeios e mortes, conhecendo de perto o rastro de destruição deixado pela guerra. Meses depois, ao retornar para Hiroshima, se surpreendeu com um cenário muito diferente: a cidade estava praticamente intacta, como se os inimigos tivessem se esquecido dali.

Ainda assim, havia uma desconfiança no ar de que algo estava errado. Cientes de que em breve as bombas incendiárias também atingiriam Hiroshima, o exército mobilizou os habitantes para demolirem construções e, desta forma, evitar que o fogo se alastrasse com facilidade.

No Japão, naquela época, era tudo diferente. Não havia comida, as pessoas estavam com fome, e o país estava destruído. No caminho de Tóquio a Hiroshima, todas as cidades foram bombardeadas. Então era estranho Hiroshima estar em pé

HIROSHIMA, 06/08/1945

Era um dia como outro qualquer. “São 73 anos, mas eu não me esqueço. Eu tinha 21 anos no dia 6 de agosto de 1945. Era um dia muito quente, saí do quartel às 8 horas.” Tudo mudou alguns minutos depois, às 8h15. “Estava tudo quieto, mas depois ouvi um buuum. Muito alto. Na hora, fui jogado para longe, e quando acordei, vi uma luz branca muito forte”, conta Takashi. Ele estava apenas a 1,3 km do epicentro da bomba e mesmo assim, sobreviveu.

Ao se levantar, o militar olhou para a cidade engolida pelo fogo, mas mal teve tempo para tentar entender o que estava acontecendo. “As pessoas gritavam: soldado, por favor, me ajude. Eu não pensava mais, apenas ajudava”, recorda.

Mesmo machucado e sem saber o que estava acontecendo, Takashi entrou na cidade que estava pegando fogo.

Havia muitos corpos, pessoas queimadas, com a pele se descolando do corpo. Eu via adultos, famílias, crianças. A cidade estava em silêncio e o ar cheirava à morte. Não tem como esquecer essa tristeza

O que ninguém sabia naquele momento é que os efeitos daquela bomba seriam muito mais devastadores do que se poderia imaginar. “Ninguém sabia da radiação. Muita gente continuou morrendo e ficando doente muito tempo depois com os efeitos da radiação. Meus pais vieram para Hiroshima uma semana depois e também foram afetados. As pessoas morriam e ninguém entendia por quê.”

No papel de policial militar imperial, Takashi sabia que tinha de manter um comportamento exemplar. Mesmo que no fundo ele já não acreditasse naquela guerra, e a tristeza fosse grande demais, era preciso se manter motivado e ajudando as pessoas como pudesse.

Com o fim da guerra – que até 6 de agosto de 1945 a população japonesa acreditava que estava ganhando -, Takashi se viu forçado a recomeçar a vida e voltou a trabalhar como relojoeiro em 1946.

Sem apoio algum do governo japonês, os sobreviventes – chamados de hibakusha – tiveram de se virar como podiam. Takashi, agora casado com Ayako – também uma sobrevivente de Hiroshima – e pai de Yasuko e Tetsuji, resolveu se mudar para o Brasil. Os Estados Unidos, onde seus irmãos mais velhos viviam, estava fora de cogitação, uma vez que japoneses não eram mais aceitos no país.

Sem falar português ou ter ideia do que os esperava, a família chegou ao Brasil. Aqui, teve a ajuda de muitas pessoas – e faz questão de expressar sua gratidão a todo o momento .

Dinheiro, não tinha. Eu gostava de trabalhar. Deu tudo certo. E o melhor do Brasil é que aqui não tem guerra