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Motim do Sneaker

Para a maioria, um par de tênis era um par de tênis.
Isso mudou para sempre naquele dia.

Orchard Street, uma pequena rua em Lower East Side, cidade de Nova York.

Pouco antes das 10h30 da manhã, mais de 100 pessoas se amontoam em uma fila que começa em frente a uma pequena loja. Um grupo de pombos faz alvoroço para disputar as smtobras de pizza que alguém jogou na calçada, mas ninguém na fila repara. O clima é tenso, jovens se agarram nas grades das lojas para não perder o lugar que estão guardando há 4 dias. Alguns estão armados com facas, tacos de baseball, como se estivessem prontos para uma batalha. A polícia não demora a aparecer, numa tentativa de restabelecer a ordem, enquanto alguns ânimos estão cada vez mais exaltados. É preciso pensar e agir rapidamente, de forma a conter uma multidão prestes a enlouquecer.

A data é 22 de fevereiro de 2005 e este episódio entrou para a história como Sneaker Riot - ou simplesmente o Motim do Sneaker. Foi o primeiro de muitos tumultos causados pelo lançamento de um tênis. Mas não era o lançamento de qualquer tênis. Era a edição limitada do Nike SB Dunk Low Pigeon (Pomba), criado em homenagem a NY por Jeff Staple, que no final daquele dia se tornaria uma lenda do design de sneakers.
Até então, colaborações entre personalidades e marcas, tão comuns hoje em dia, eram mais raras. Para a maioria, um par de tênis era um par de tênis, que você substituia conforme sua necessidade. Isso mudou para sempre nesse dia.

Apenas 150 pares foram disponibilizados para a venda

Somente 20 deles podiam ser encontrados na loja Reed Space. O preço sugerido - US$ 69 - nunca foi seguido. Os poucos sortudos que sobreviveram à fila, tiveram de desembolsar pelo menos US$ 300 naquele dia. O que começou com uma fila de cerca de 20 aficcionados por sneakers, se multiplicou para três digitos quando o resto da cidade ficou sabendo do valor de revenda dos pares no Ebay. Hoje, 12 anos depois, um Nike Dunk SB Low Pigeon não sai por menos de US$ 6 mil.

A linha Nike SB Dunk Low Pro

Sua primeira coleção foi lançada em março de 2002. Pensada para skatistas, a série Colors By contou com uma criação coletiva com a participação de skatistas influentes na comunidade, como Richard Mulder, Danny Suppa, Reese Forbes e Gino Iannucci. A única orientação recebida pelo grupo:

“Use a SB Dunk como uma tela em branco”.

E assim o SD Dunk Low Pro deu início a uma série de colaborações que já duram 15 anos. Conheça a história de alguns dos designs mais conhecidos:

1Pigeon

Foi criado em homenagem a Nova York por Jeff Staple como parte de uma série de colaborações em homenagem as cidades de Tokyo, Londres e Paris. Mudou a cultura do sneaker, mesmo com um design que o criador admitiu não ser super inovador.

A pomba foi escolhida por Jeff para representar Nova York, pois assim como os locais, elas não estão nem aí com o caos da cidade e não têm medo de nada.

2Supreme

Até 2002, apenas o Air Jordan III tinha a adorada textura de pele de elefante, mas isso mudou quando os colaboradores do SB Dunk Supreme quiseram experimentar a padronagem em outro tênis. O modelo tornou-se um clássico instantâneo.

3Zoo-York

Com uma pegada gráfica mais forte, o SB Dunk Zoo-York foi o resultado da parceria da Nike com a Zoo-York. O combo de duas marcas fortes na cena do skate resultou em um sneaker que era difícil de ser encontrado na época e impossível de se encontrar agora.

4Reese Denim

O Reese Denim se inspirou no jeans das roupas dos skatistas para colocá-lo também em seus pés. O tênis contava ainda com um inconfundível solado vermelho.

De volta ao dia 22 de fevereiro de 2005.

A Nike queria um SB Dunk que homenageasse a cidade de Nova York, e Jeff Staple foi convidado para criar o modelo.

“Quando criei o tênis Pigeon eu sabia que seria um ótimo tênis, mas eu não sabia que afetaria o mundo como afetou”,

disse o designer ao Complex News no vídeo comemorativo dos 10 anos do lançamento do calçado.

Alguns dias antes da data estipulada, jovens começaram a acampar na calçada da loja, dando pistas do que viria a seguir. Logo na manhã do dia 22, o caos estava instalado no Lower East Side. Quem conseguiu comprar um dos 20 pares de tênis disponíveis na Reed Space teve de sair pela porta dos fundos e entrar diretamente em um táxi, escoltado pela polícia.

Com uma forcinha da imprensa, que noticiou de todas as formas possíveis o Motim do Sneaker, de repente a cultura sneakerhead se espalhou. Executivos de terno, gravata e sapato social que faturavam alto em Wall Street começaram a procurar a Reed Space por coleções exclusivas. Colaborações com artistas, designers e celebridades de todo o mundo se multiplicaram. E o caos em lançamentos de colaborações com pares limitados se tornaram comuns.

A equipe da Nike dedicada a colaborações cresceu, de um punhado de pessoas para um prédio inteiro. O que era uma subcultura se tornou uma indústria. Quanto ao Jeff, ele ainda está na ativa, mas a sua loja Reed Space fechou as portas no fim do ano passado. Se você for até a Orchard Street para um pouco da história sneaker, a única coisa que vai encontrar será pombas fazendo alvoroço por algum resto de comida.