Localizada 240 quilômetros ao norte do Círculo Polar Ártico, a cidade russa de Norilsk é terra de extremos. Além de ser a cidade com população superior a 100.000 habitantes mais ao norte do mundo, Norilsk também é uma das mais frias, com uma temperatura média anual de -10ºC, chegando a -55ºC no inverno. São 280 dias por ano de muito frio, com pelo menos 130 dias de tempestades de neve.

O clima não é o único desafio para os moradores de Norilsk. A cidade também é uma das mais poluídas do planeta. A extração de minérios como níquel e paládio cobre a região com uma névoa densa, cheia de substâncias químicas usadas pelas mineradoras.

Não quer dizer que temos rios verdes ou lagos que brilham no escuro

diz Badalian Amayak Aznifovich, um piloto de helicópteros especializado em resgates que mora em Norilsk há 30 anos.

 

Até os 17 anos, Badalian morou em um vilarejo ensolarado e quente no sul da Rússia, na mesma altura que Roma ou Barcelona. Sua vida mudou com o seu sucesso acadêmico. Na União Soviética os alunos que se destacavam nos exames podiam escolher qualquer cidade para trabalhar. E apesar de Norilsk não parecer a melhor escolha por conta do clima, era lá que os alunos brilhantes iam em busca de altos salários.

Sabe, as pessoas se acostumam a tudo. Nós, que moramos em um lugar onde o sol não sobe além da linha do horizonte por 3 meses, nem conseguimos imaginar como é viver perto do mar, em um lugar onde a temperatura média anual é de 27ºC

 

“É claro que uma pessoa despreparada pode se sentir desconfortável por aqui, mas em 2018 temos tudo que é possível para compensar as inconveniências climáticas. Apesar da natureza extrema da região, temos muito poucas emergências ou mortes decorrentes do clima.”

Para se chegar a Norilsk, só pelo ar. A região da Península de Taimyr não conta com ferrovias ou rodovias que a liguem com o resto do país. Muitas pessoas vivem na tundra e contam apenas com trenós ou snowmobiles para transportá-los, o que torna impossível para eles chegarem rapidamente à civilização. E por isso o trabalho de resgate aéreo de Badalian é essencial. “Cada minuto conta. Muitas vezes participamos da busca de trabalhadores e no transporte de pessoas doentes. Isso tudo voando em condições em que a maioria de nós não teria nem coragem de sair de casa”.

Antes de começar a pilotar helicópteros de resgate, em 2016, Badalian pilotava aviões, tanto grandes quanto pequenos. “É um trabalho desafiador. Nosso esquadrão – e eu, pessoalmente – temos permissão para voos de alta complexidade, como noturnos, nas montanhas e sobre o Ártico. A recompensa é que voar permite uma parcela de romantismo, com vistas magníficas da natureza intocada.

Um resgate recente marcou Badalian. “Tínhamos de transportar um bebê com um respirador artificial, mas o voo era muito longo e o aparelho descarregou. O carregador do helicóptero era forte demais e os médicos não podiam usá-lo. Quando estávamos nos aproximando do aeroporto – que é similar a um cruzamento movimentado, cheio de outros aviões e helicópteros – nós avisamos as outras naves sobre nossa situação. A notícia se espalhou e a torre de comando começou a desviar Boeings com centenas de pessoas a bordo, atrasando dezenas de voos, para que um helicóptero com um bebê doente pudesse pousar”.

Nós vivemos em completo isolamento aqui, mas posso dizer que é de um jeito bom. Isso ocorre porque todos nós trabalhamos por uma causa comum. Condições extremas unem as pessoas, desenvolvem a empatia e um senso de colaboração mútua e responsabilidade

 

Apesar do senso de comunidade, viver em Norilsk tem um prazo de validade. A maioria das pessoas na casa dos 60 anos está se mudando para regiões mais quentes, aproveitando um programa no qual transferem suas propriedades para o governo em troca de uma área similar mais ao sul do país.

“Para ser honesto, amo meu trabalho e quero voar enquanto for possível”. Isso não significa que Badalian não descarta a possibilidade de um dia, quem sabe, se mudar para um lugar com um clima mais agradável.

Quando eu me aposentar, minha família e eu nos mudaremos para uma casinha nas montanhas do Território Krasnodar, próxima a região quente e ensolarada onde eu nasci.